10  Processos Não Estacionários I

10.1 Motivação

Até o momento, focamos em séries de retornos que tendem a ser estacionárias. Porém, em muitos estudos temos interesse em outras séries temporais como taxa de juros, câmbio, inflação e crescimento econômico. Quando a série temporal não é estacionária, não se pode estimá-la trivialmente.

O procedimento básico é diferenciar a série tantas vezes quantas sejam necessárias para estacionarizá-la. De modo geral:

\[y_t = \underbrace{\text{tendência}}_{\text{não estacionária}} + \underbrace{\text{componente estacionário}}_{\text{modelável}} + \underbrace{\text{ruído}}_{}\]

10.2 Séries Integradas

Considere o modelo:

\[y_t = y_{t-1} + \delta + \epsilon_t\]

Este é um AR(1) com coeficiente \(\phi = 1\), que não tem variância definida (viola a condição de estabilidade). Ao diferenciar a série:

\[\Delta y_t = \delta + \epsilon_t\]

é fácil verificar que a série diferenciada é estacionária.

TipDefinição: Série Integrada

Uma série cuja estacionariedade é alcançada por diferenciação é chamada de tendência estocástica. Séries com tendência estocástica são chamadas séries integradas e denotadas por \(I(d)\), em que \(d\) é o número de diferenciações necessárias.

Quando o termo de erro \(\epsilon_t\) é estacionário, a série é chamada ARIMA(\(p\), \(d\), \(q\)).

10.3 Passeio Aleatório

Para \(I(1)\) com \(\delta = 0\) (sem drift):

\[y_t = y_{t-1} + \epsilon_t\]

Reescrevendo recursivamente:

\[y_t = y_0 + \sum_{i=1}^{t} \epsilon_i\]

A previsão condicional é simplesmente a observação atual:

\[E_t(y_{t+h}) = y_t + \sum_{h=1}^{H} E_t(\epsilon_{t+h}) = y_t\]

A variância, a covariância e a autocorrelação dependem do tempo:

\[\begin{aligned} \text{Var}(y_t) &= t\,\sigma^2 \\ \text{Cov}(y_t, y_{t-j}) &= (t-j)\,\sigma^2 \\ \rho_j &= \sqrt{1 - \frac{j}{t}} \end{aligned}\]

NoteNota

Em um processo não estacionário, a autocorrelação demora a cair — a FAC amostral apresenta decaimento muito lento.

10.4 Passeio Aleatório com Drift

Para \(I(1)\) com \(\delta \neq 0\):

\[y_t = y_{t-1} + \delta + \epsilon_t \quad \Rightarrow \quad y_t = y_0 + \delta\,t + \sum_{i=1}^{t} \epsilon_i\]

\(y_t\) depende de um componente determinístico (\(\delta\,t\)) e de um componente estocástico (\(\sum \epsilon_i\)). A previsão condicional é:

\[E_t(y_{t+h}) = y_t + \delta\,H\]

10.5 Passeio Aleatório com Ruído

Adicionando um ruído branco \(\eta_t\) ao passeio aleatório puro:

\[y_t = y_0 + \sum_{i=1}^{t} \epsilon_i + \eta_t\]

Após diferenciar: \(\Delta y_t = \epsilon_t + \Delta\eta_t\).

Este modelo I(1) possui autocorrelação menor do que o passeio aleatório puro:

\[\begin{aligned} \text{Var}(y_t) &= t\,\sigma^2 + \sigma_\eta^2 \\ \text{Cov}(y_t, y_{t-j}) &= (t-j)\,\sigma^2 \\ \rho_j &= \frac{(t-j)\,\sigma^2}{\sqrt{(t\,\sigma^2 + \sigma_\eta^2)[(t-j)\sigma^2 + \sigma_\eta^2]}} < \sqrt{1 - \frac{j}{t}} \end{aligned}\]

10.6 Tendência Estacionária

Considere o modelo:

\[y_t = y_0 + \delta\,t + \psi(L)\,\epsilon_t\]

em que \(f(t) = y_0 + \delta\,t\) é chamada de tendência determinística e \(\psi(L)\) é um polinômio no operador de defasagem que captura a estrutura dinâmica estocástica.

Ao diferenciar:

\[\Delta y_t = (1-L)\,y_t = \delta + (1-L)\,\psi(L)\,\epsilon_t\]

ImportantAtenção

A diferenciação de uma série com tendência estacionária não é a melhor abordagem — os resíduos diferenciados divergem de um ruído branco. Veremos o tratamento correto no próximo capítulo.

10.7 Modelo Geral

O modelo mais geral inclui tendência determinística e estocástica além de erros ARMA(\(p\), \(q\)):

\[y_t = y_0 + \delta\,t + \psi(L)\,\eta_t + \sum_{i=1}^{t} \epsilon_i\]

em que \(\eta_t\) é um ruído branco.