6  Metodologia Box-Jenkins

6.1 Processos Estacionários

A metodologia de Box et al. (1994) parte da premissa de que a série temporal é estacionária:

\[\begin{cases} \text{série não estacionária} & \Rightarrow \text{diferenciá-la} \\ \text{série estacionária} & \Rightarrow \text{modelagem, inferência e previsão} \end{cases}\]

O procedimento segue as etapas:

  1. Identificar as ordens \(p\) e \(q\) do modelo.
  2. Estimar os parâmetros do modelo.
  3. Verificar se os resíduos não rejeitam \(H_0\) de serem ruído branco.
  4. Previsão.
TipTeorema de Wold

Qualquer processo estacionário, mesmo não sendo linear, tem uma representação linear que pode ser decomposta em dois componentes: (i) estocástico e (ii) determinístico.

6.2 Função de Autocorrelação (FAC)

Intuição: a FAC é expressa num gráfico da autocorrelação em função das defasagens. É particularmente importante para identificar a ordem \(q\) de um processo MA, pois a autocorrelação do MA torna-se zero a partir da defasagem \(q\).

No caso de um AR(1), a FAC decai exponencialmente. Num ARMA(\(p\), \(q\)), o padrão pode ter diversas configurações.

NoteNota

Dependendo da magnitude dos coeficientes de \(\phi(L)\) e \(\theta(L)\), o padrão observado na FAC pode diferir do verdadeiro processo gerador de dados.

6.3 Função de Autocorrelação Parcial (FACP)

Intuição: a FACP é representada num gráfico de \(\hat{\phi}_{j,j}\) contra \(j\), obtida estimando repetidamente a regressão:

\[y_t = \phi_{j,1}\,y_{t-1} + \phi_{j,2}\,y_{t-2} + \cdots + \phi_{j,j}\,y_{t-j} + \epsilon_t\]

O procedimento consiste em regredir \(y_t\) contra \(y_{t-1}\) e obter \(\hat{\phi}_{1,1}\); depois regredir \(y_t\) contra \(y_{t-1}\) e \(y_{t-2}\) e guardar \(\hat{\phi}_{2,2}\); e assim sucessivamente.

ImportantPropriedade de identificação

Em um AR(\(p\)), serão encontrados coeficientes diferentes de zero até \(\hat{\phi}_{p,p}\) — a FACP se torna zero (trunca) após a defasagem \(p\). Num ARMA(\(p\), \(q\)), há decaimento a partir da defasagem \(p\).

6.4 Tabela de Identificação

Modelo FAC FACP
AR(\(p\)) Decai (exponencial ou oscilatória) Truncada em \(p\)
MA(\(q\)) Truncada em \(q\) Decai
ARMA(\(p\), \(q\)) Decai para \(j > q\) Decai para \(j > p\)

6.5 Passo a Passo da Modelagem

  1. Calcular a média amostral \(\bar{y}\).
  2. Calcular a autocorrelação amostral \(\hat{\rho}_j\).
  3. Construir o gráfico \(\hat{\rho}_j\) vs. \(j\) (FAC).
  4. Identificar a ordem do modelo por meio da FAC e FACP.
  5. Estimar os coeficientes e os resíduos.

6.6 Teste de Ljung-Box

Se o modelo estiver corretamente especificado, os resíduos devem se comportar como ruído branco — a autocorrelação dos resíduos deve ser zero. O Teste de Ljung-Box avalia:

\[\begin{cases} H_0: \sum_{j=1}^{n} \rho_j = 0 \\ H_1: \sum_{j=1}^{n} \rho_j \neq 0 \end{cases}\]

com estatística de teste:

\[Q = T(T+2) \sum_{j=1}^{n} \frac{\hat{\rho}_j^2}{T - j} \xrightarrow{d} \chi^2_n\]

ImportantRejeição da hipótese nula

Se \(H_0\) for rejeitada, ainda há informação relevante nos resíduos. Deve-se testar outras especificações de modelo.

6.7 Critérios de Informação

Intuição: ao incluir mais regressores, a soma de resíduos tende a diminuir. Os critérios de informação penalizam a inclusão excessiva de parâmetros. A estrutura geral é:

\[C = \ln \hat{\sigma}^2(T) + c\,\phi(T)\]

em que \(\hat{\sigma}^2\) é a variância dos resíduos, \(c\) é o número de parâmetros e \(\phi(T)\) é a função de penalização.

Os três critérios mais utilizados são:

\[\text{AIC}(p,q) = \ln \hat{\sigma}^2 + n\,\frac{2}{T}\]

\[\text{BIC}(p,q) = \ln \hat{\sigma}^2 + n\,\frac{\ln T}{T}\]

\[\text{HQ}(p,q) = \ln \hat{\sigma}^2 + n\,\frac{2\ln\ln T}{T}\]

NoteNota

Desejamos o menor valor de um critério de informação. Para uma mesma amostra, costuma valer que \(\text{BIC} \leq \text{HQ} \leq \text{AIC}\).