9  Títulos Privados

9.1 Captação de Recursos: Setor Público vs. Privado

O juro é o preço do tempo — a remuneração exigida por quem cede recursos a quem precisa captá-los. No sistema financeiro, essa captação ocorre em dois grandes segmentos: o setor público e o setor privado.

NoteDistinção fundamental

No caso de Títulos Públicos, o Tesouro Nacional sempre pode emitir moeda para quitar sua dívida interna. Por isso, o risco de inadimplência soberana (em moeda local) é considerado praticamente nulo. O preço dos títulos públicos é afetado principalmente por condições macroeconômicas — inflação, câmbio e nível geral de juros.

Já no caso de Títulos Privados, as firmas e instituições financeiras não possuem essa capacidade. O preço é, via de regra, acima do título público equivalente (maior retorno exigido = maior risco), e é afetado por fatores macro e micro:

  • Garantias — reais (imóveis, recebíveis) ou institucionais (FGC)
  • Rating — classificação de risco da firma e da emissão
  • Liquidez — facilidade de negociar o título no mercado secundário

9.2 Interbancário e a Taxa DI

O mercado interbancário é onde as instituições financeiras (IFs) negociam reservas entre si, geralmente por prazo de 1 dia (overnight). Quando uma IF não consegue encontrar contraparte no mercado, é possível negociar diretamente com o Banco Central.

A remuneração dos depósitos interbancários segue a fórmula de juros compostos em base de 360 dias corridos:

\[VR = VP\,(1+i)^{1/360}\]

TipTaxa DI (CDI)

A Taxa DI (também chamada de CDI — Certificado de Depósito Interbancário) é a média das taxas praticadas nas operações de overnight entre as instituições financeiras. É calculada e divulgada diariamente pela B3.

A Taxa DI é geralmente ligeiramente superior à SELIC, pois reflete o custo efetivo de captação entre bancos privados — sem o benefício de garantia implícita do governo.


9.3 CDB — Certificado de Depósito Bancário

O CDB é um título de dívida emitido por instituições financeiras (bancos comerciais, de investimento, etc.) para captar recursos junto a investidores pessoas físicas e jurídicas.

Principais características:

  • Garantido pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos) até R$ 250 mil por IF e por CPF/CNPJ
  • Taxa varia conforme liquidez do título, rating do emissor e prazo
  • Tributação: IR conforme tabela regressiva (22,5% até 180 dias → 15% acima de 720 dias); IOF para resgates em até 30 dias

O imposto de renda incide apenas sobre o rendimento:

\[IR = (VR - VA) \cdot \alpha\]

onde \(\alpha\) é a alíquota aplicável conforme o prazo de aplicação.

CDB Pré-fixado

A taxa é definida no momento da contratação e o valor de resgate é conhecido desde o início:

\[VCB = VA\,(1+i)^{n/360}\]

onde \(i\) é a taxa nominal anual contratada e \(n\) é o prazo em dias corridos.

CDB Pós-fixado

O valor de resgate depende de um indexador que varia ao longo do tempo, acrescido de um spread fixo. A fórmula geral combina dois fatores:

\[VCB = VA\,(1+i_L)^{n_L/360} \cdot (1+i_s)^{n_s/360}\]

onde \(i_L\) é a taxa do indexador e \(i_s\) é o spread contratado. Os indexadores mais comuns são:

Indexador Forma habitual Exemplo
CDI Percentual do CDI 110% do CDI
IGPM IGPM + spread IGPM + 2% a.a.
IPCA IPCA + spread IPCA + 5% a.a.
NotePor que CDB pós-fixado protege da inflação?

Um CDB atrelado ao IPCA + spread garante rentabilidade real positiva: mesmo que a inflação suba, o valor de resgate acompanha a correção monetária. Isso o torna economicamente semelhante a uma NTN-B, mas emitido pelo setor bancário privado (com FGC como garantia adicional).


9.4 Debêntures

As debêntures são títulos de longo prazo emitidos por instituições não financeiras (empresas de capital aberto) para captar recursos diretamente no mercado de capitais. Por não serem emitidas por bancos, não contam com a garantia do FGC. Para compensar esse risco, as empresas frequentemente utilizam garantias reais ou fidejussórias para melhorar o rating da emissão e reduzir o custo de captação.

  • Isentas de IOF; tributação de IR conforme tabela regressiva
  • Negociadas na B3 ou no mercado de balcão
  • Podem ser debentures incentivadas (isentas de IR para pessoa física) quando vinculadas a projetos de infraestrutura

Precificação de Debêntures Pós-fixadas (IGPM + spread)

Para debêntures indexadas ao IGPM com pagamentos periódicos de cupom, o Valor Nominal Atualizado (VNA) é corrigido pelo índice a cada período, e o cupom é calculado sobre o VNA corrente:

\[VNA_k = VNA_{k-1}\,(1+IGPM_k)\]

\[R_k = VNA_k \cdot i_s\]

onde \(i_s\) é a taxa semestral equivalente ao spread anual: \(i_s = (1+i_a)^{1/2} - 1\).

Na maturidade, o principal devolvido é o \(VNA_n\) atualizado.

O preço de mercado \(P\) é o valor presente de todos os fluxos:

\[P = \sum_{k=1}^{n}\frac{R_k}{(1+Ytm)^k} + \frac{VNA_n}{(1+Ytm)^n}\]

onde \(Ytm\) é o yield to maturity semestral implícito no preço negociado.

TipExemplo — Debênture IGPM + 14% a.a.

Dados:

  • Taxa: IGPM + \(14\%\) a.a. \(\Rightarrow\) \(i_s = (1{,}14)^{1/2} - 1 = 6{,}77\%\) a.s.
  • Prazo: 18 meses (3 semestres), com juros semestrais
  • IGPM acumulado por semestre: \(0{,}5\%\); \(0{,}6\%\); \(0{,}7\%\)
  • Valor de face: \(VF = \text{R\$}\;1.000\)
  • Preço de mercado: \(VA = \text{R\$}\;945\)

Passo 1 — Atualização do VNA e cálculo dos cupons:

Semestre \(IGPM_k\) \(VNA_k\) \(R_k = VNA_k \times 6{,}77\%\)
1 0,5% 1.005,00 68,04
2 0,6% 1.011,03 68,45
3 0,7% 1.018,11 68,93

Fluxo final (sem. 3): cupom \(+\) principal \(= 68{,}93 + 1.018{,}11 = \text{R\$}\;1.087{,}04\).

Passo 2 — YTM implícito:

\[945 = \frac{68{,}04}{(1+Ytm)} + \frac{68{,}45}{(1+Ytm)^2} + \frac{1.087{,}04}{(1+Ytm)^3}\]

\[Ytm \approx \mathbf{9{,}59\%}\text{ a.s.}\]

O investidor que paga R$ 945 por uma debênture com IGPM + 14% a.a. (spread contratado) obtém, dado o atual nível de IGPM, um retorno efetivo de 9,59% ao semestre — que inclui a correção monetária e o spread de crédito.


9.5 LCI e LCA

As Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) são títulos emitidos por bancos com destinação específica: os recursos captados devem ser direcionados, respectivamente, para o financiamento imobiliário e para o agronegócio.

Características principais:

  • Isentas de IR e IOF para pessoas físicas — vantagem tributária relevante em relação ao CDB
  • Garantidas pelo FGC (até R$ 250 mil por IF e CPF), assim como o CDB
  • Geralmente atreladas ao CDI ou ao IPCA + spread
  • Ressalva importante: possuem prazo mínimo de carência (em geral 90 dias), o que limita a liquidez — o investidor não pode resgatar antes do prazo contratado
NoteEquivalência com CDB após IR

Para comparar uma LCI/LCA com um CDB tributado, é necessário calcular a taxa equivalente líquida. Para alíquota de IR de \(\alpha\):

\[i_{CDB\text{ líq}} = i_{CDB} \cdot (1-\alpha) \quad \Leftrightarrow \quad i_{LCI/LCA}\]

Exemplo: um CDB a 12% a.a. com IR de 15% rende 10,2% a.a. líquido — equivalente a uma LCI a 10,2% a.a.


9.6 CRI e CRA

Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) são instrumentos de securitização: empresas transformam carteiras de crédito (recebíveis) em títulos negociáveis no mercado de capitais.

  • Emitidos por empresas securitizadoras (não por bancos)
  • Lastreados no valor de uma carteira de recebíveis (aluguéis, financiamentos, contratos agrícolas)
  • Isentos de IR e IOF para pessoas físicas
  • Não contam com garantia do FGC — o risco de crédito recai sobre a qualidade dos recebíveis e das garantias estruturadas na emissão
  • Geralmente têm liquidez mais limitada que CDB/LCI/LCA
ImportantComparativo dos títulos privados de renda fixa
Título Emissor FGC IR/IOF Indexadores
CDB Banco Sim Pré, CDI, IPCA, IGPM
LCI/LCA Banco Isento CDI, IPCA
Debênture Empresa não financeira Sim IGPM, IPCA, IPCA+spread
CRI/CRA Securitizadora Isento IPCA, IGP-M, CDI

9.7 Mercado Internacional

Os títulos de renda fixa do mercado internacional seguem lógica semelhante à dos títulos brasileiros, com nomenclatura e convenções próprias.

Tesouro Americano (U.S. Treasury)

Os títulos emitidos pelo governo federal dos EUA são considerados o ativo livre de risco de referência global (risk-free benchmark), pois os EUA podem emitir dólares para honrar sua dívida interna.

Título Equivalente BR Prazo Cupom
T-Bill LTN Curto prazo (≤ 1 ano) Nenhum (zero cupom)
T-Note NTN-F Médio prazo (2–10 anos) Semestral
T-Bond NTN-F Longo prazo (> 10 anos) Semestral

Bonds Corporativos

Os bonds corporativos são o equivalente internacional das debêntures — títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos no mercado de capitais internacional. Em geral, pagam cupom semestral sobre o valor de face e têm preço determinado pelo mercado secundário em função do risco de crédito do emissor.

NoteSpread soberano e spread de crédito

No mercado internacional, o rendimento (yield) de qualquer título é decomposto em duas partes:

\[Yield = Yield_{T-Bond} + \underbrace{Spread_{\text{soberano}} + Spread_{\text{crédito}}}_{\text{prêmio de risco}}\]

O spread soberano reflete o risco-país (ex: diferencial entre títulos brasileiros e americanos de mesmo prazo), enquanto o spread de crédito reflete o risco específico do emissor privado em relação ao governo local.