4 Séries Infinitas — Perpetuidades
4.1 Motivação
Uma perpetuidade é uma série de pagamentos que se estende indefinidamente no tempo (\(n \to \infty\)). O problema central é: quanto vale hoje uma renda que dura para sempre?
Perpetuidades surgem na avaliação de ações (Modelo de Gordon), fundos de endowment, rendas vitalícias e na análise de dívidas soberanas (consols britânicos).
4.2 Séries Discretas
Perpetuidade Uniforme
Partindo do valor presente de uma série vencida com \(n\) períodos e tomando o limite \(n \to \infty\):
\[\boxed{P = \frac{R}{i}.} \qquad\text{Equivalentemente: } R = P\cdot i.\]
A lógica é direta: os juros \(P \cdot i\) gerados pelo capital \(P\) a cada período são exatamente retirados sem jamais tocar no principal.
Perpetuidade em PA (Gradiente Crescente)
Para pagamentos em PA — \(\{R, 2R, 3R, \ldots\}\) — aplicando a Regra de L’Hôpital quando \(n \to \infty\):
\[P = \frac{R\,(1+i)}{i^2}.\]
Para uma série em PA decrescente os pagamentos eventualmente se tornam negativos; a série não possui sentido econômico como perpetuidade. Para séries em PG decrescentes (\(\alpha < 0\)), a convergência requer \(|\alpha| < i\).
Perpetuidade em PG
Para pagamentos em PG com crescimento \(\alpha\) por período, tomando \(n \to \infty\) com \(\alpha < i\):
\[\boxed{P = \frac{R}{i - \alpha}.}\]
Se \(\alpha \geq i\), a série diverge (pagamentos crescem mais rápido do que a taxa de desconto) e o valor presente é infinito.
4.3 Séries Contínuas
Perpetuidade Uniforme Contínua
Para um fluxo contínuo \(b\) por unidade de tempo a uma taxa contínua \(r\):
\[P = \lim_{T\to\infty} \frac{b(1-e^{-rT})}{r} = \frac{b}{r}.\]
Perpetuidade Gradiente Crescente Contínua
Para fluxo \(b(t) = b_0 \, e^{\alpha t}\) (crescimento contínuo a taxa \(\alpha < r\)):
\[P = \int_0^\infty b_0 e^{\alpha t} e^{-rt}\,dt = \frac{b_0}{r - \alpha}.\]
4.4 Modelo de Gordon
O Modelo de Gordon (1956) é a aplicação direta da fórmula de perpetuidade geométrica à avaliação de ações.
O preço de uma ação é o valor presente do fluxo de dividendos futuros esperados, descontados pela taxa de retorno requerida (custo de oportunidade) \(i\).
Para dividendo constante \(D\): \(P = D/i\).
Para dividendo crescendo a \(\alpha\) por período (\(i > \alpha\)):
\[\boxed{P_0 = \frac{D_0(1+\alpha)}{i - \alpha} = \frac{D_1}{i - \alpha},}\]
onde \(D_1 = D_0(1+\alpha)\) é o dividendo esperado no próximo período.
Hipóteses ilustrativas (dados de referência, 2024):
- Dividendo pago no último exercício: \(D_0 = \text{R\$ }3{,}20\) por ação.
- Taxa de crescimento estimada dos dividendos: \(\alpha = 5\%\) a.a.
- Taxa de retorno requerida pelo acionista: \(i = 15\%\) a.a. (CAPM).
\[P_0 = \frac{3{,}20 \times 1{,}05}{0{,}15 - 0{,}05} = \frac{3{,}36}{0{,}10} = \textbf{R\$ 33,60.}\]
Se o preço de mercado for inferior a R$ 33,60, o ativo está subavaliado pelo modelo. Note a sensibilidade: se \(\alpha\) subir para \(7\%\), o preço-justo sobe para R$ 42,24 (\(+25\%\)).